Os professores, os seus alunos e o efeito Pigmaleão
Muito se tem falado nas desigualdades de acesso à educação por parte das famílias, que num registo de ensino à distância, ainda se tornam mais evidentes.
Era ainda uma adolescente quando um dia chamei a atenção de um adulto desconhecido, que “acidentalmente” deixou cair um papel no chão da rua, dizendo: “Olhe desculpe... deixou cair este papel.” Ele voltou-se e olhou para mim, ao que acrescentei: “Não sei se é importante…” Visivelmente surpreendido com a minha interpelação apanhou o papel e agradeceu. Repeti este procedimento algumas vezes ao longo da vida e creio que chegará o dia em que confrontarei alguém que, porventura, terá uma reacção menos simpática comigo. Contudo, até hoje, tal não aconteceu.
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Alguns anos mais tarde haveria de aprender em Psicologia que ter expectativas positivas sobre os outros conduz a um desempenho melhorado ou comportamento mais adaptativo. É o chamado efeito Pigmaleão, assim designado após um estudo que evidenciou que os professores que têm uma visão positiva dos seus alunos, tendem a estimular o lado bom desses alunos e estes alcançam melhores resultados. Inversamente, os professores que não demonstram apreço pelos seus alunos tendem a estimular, nos mesmos, posturas que comprometem negativamente o seu desempenho e/ou comportamento.
Escrevo sobre isto numa altura em que são conhecidos os resultados do mais recente estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), feito em colaboração com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e que conta com a participação de 45 países, nos quais se inclui Portugal (Matos & Equipa Aventura Social, 2020). Entre muitos dados interessantes de análise destaco, em particular, cinco resultados.
As boas notícias são que os adolescentes portugueses reportam um apoio social da família e dos amigos, superior à média europeia. Os rapazes percepcionam também um apoio social por parte dos colegas, superior aos restantes países. Por outro lado, é fraco o gosto dos adolescentes pela escola. Não só fraco em si mesmo, como também por comparação com os restantes países europeus. É elevada a pressão com os trabalhos escolares, sobretudo nos adolescentes mais velhos e nas raparigas. E estas, comparativamente com outros países, percepcionam um apoio social menor por parte dos professores.
Muito se tem falado nas desigualdades de acesso à educação por parte das famílias, que num registo de ensino à distância, ainda se tornam mais evidentes. Mas, não falar nas assimetrias patentes naquilo que está a ser proporcionado por diferentes contextos escolares, particularmente em tempos de pandemia, e/ou por agentes educativos distintos dentro de uma mesma instituição escolar, é ignorar o “elefante no meio da sala”.
O país tem conhecido muitos exemplos extraordinários de inovação pedagógica por parte dos professores e órgãos de gestão nos últimos tempos. Eu própria tenho testemunhado, de perto, essa dedicação e capacidade de se reinventarem em tempos de mudança. Contudo, os dados do nosso país (neste âmbito e em média), não são historicamente animadores e são cronicamente assim desde 1998.
Estes são resultados anteriores à fase pandémica em que vivemos. Como serão os que forem recolhidos daqui por dois anos? Confesso-me expectante e esperançosa de que se possa aproveitar o desafio desta pandemia para produzir mudanças nesta fatia do mundo que é o nosso país.
As causas são certamente multifactoriais e não dependentes apenas de variáveis ligadas aos alunos, famílias, professores, escolas e seus órgãos de gestão. Mas, hoje foco-me, em particular, no papel das expectativas e na importância da relação pedagógica. Porque os momentos mais marcantes da nossa vida são experiências ligadas a outras pessoas.
Pense num professor que o tenha marcado. Recorde exactamente o que o impressionou, seja pela positiva ou negativa. Foi a forma como explicou o ciclo de Krebs? A crise de 1383-1385? A fórmula resolvente? Ou foi uma atitude ou um comportamento em particular? A forma como o fez sentir em determinado momento do seu percurso enquanto estudante? Há muita coisa que se ensina e aprende no contexto escolar, para lá do que está nos manuais, que é ainda mais marcante. Saibamos nós aproveitar esta descontinuidade do nosso percurso, que nos obriga a sair da zona de conforto, para caminharmos nesse sentido.